JR, conhecido como o ‘Banksy francês’, cria instalação em forma de ‘caverna’ sobre a ponte mais antiga de Paris
Michel Euler/AP
A ponte mais antiga de Paris parece ter sido engolida por uma montanha nesta quinta-feira (21),
A transformação é obra de JR, o artista de rua conhecido como o “Banksy francês”, que começou nesta semana a inflar uma gigantesca “caverna” artificial sobre a Pont Neuf. A intervenção transformou a estrutura do século 17, que cruza o rio Sena há mais de 400 anos, em uma ilusão rochosa que emerge sobre as águas.
JR afirmou que a ideia de “La Caverne du Pont Neuf” é trazer o “mineral e a natureza” de volta ao coração da cidade. Ele diz que sua intenção não é cobrir a ponte, mas sim revelar a pedra retirada das pedreiras de calcário das quais a própria Paris foi esculpida.
Uma massa cinzenta e pontiaguda de rochas agora parece se erguer sobre os arcos da estrutura. Para quem olha de pontos mais baixos do rio, o monumento histórico parece ter desaparecido sob um penhasco pré-histórico, com suas aberturas de pedra transformadas em entradas escuras de cavernas acima da água.
“Pensei: ‘Para onde foi a ponte?’”, disse Marie Leclerc, de 62 anos, que parou no cais a caminho do trabalho. “É estranho porque você sabe que é tecido e ar, mas daqui realmente parece pedra. Paris de repente parece antiga de novo.”
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Fazer os parisienses pararem — e se surpreenderem
O processo para inflar a estrutura, realizado durante a madrugada após ser adiado pelo mau tempo, é a etapa mais impressionante de um projeto que levou mais de um ano para ser concluído.
“É um quebra-cabeça gigantesco que acabou de ser finalizado”, disse JR à agência de notícias Associated Press (AP) na ponte, enquanto sua equipe se preparava para bombear o ar. “Vamos injetar ar lá dentro, e todas essas rochas vão subir no céu de Paris, chegando a quase 18 metros de altura. Uma vez infladas, elas permanecem assim.”
Sendo uma das obras de arte pública mais ambiciosas que Paris viu em décadas — financiada pela venda das próprias obras de JR e por um grupo de empresas parceiras —, a instalação só abrirá ao público em 6 de junho.
A transformação vem sendo documentada pela AP desde março com câmeras de time-lapse, incluindo uma instalada no terraço de um edifício bem acima do rio, registrando a ponte desaparecer lentamente dia após dia.
Por fora, a instalação parece uma massa rochosa que “literalmente” rompe a paisagem, afirmou JR, famoso por colar fotografias enormes em edifícios, muros e telhados ao redor do mundo. Ele é frequentemente comparado ao artista de rua britânico Banksy pelo estilo de seu trabalho.
“Normalmente, todo mundo cruza aqui sem olhar”, disse Julien Moreau, de 34 anos, enquanto tirava fotos perto do rio Sena. “Esta manhã, todos estavam parados, observando. Isso, por si só, já é a obra de arte.”
JR disse que queria fazer os parisienses tomarem uma atitude incomum em sua ponte mais famosa: parar.
“Estamos todos um pouco estressados. Queremos que funcione”, disse ele, enquanto operários equipados com cintos de segurança preparavam a estrutura. “Mas essa é a beleza de um projeto como este — sua fragilidade, o fato de trabalhar na rua, expondo-se a todos.”
Alguns pedestres, acrescentou ele, “vão passar sem nem perceber que ela está subindo. Outros ficarão completamente maravilhados.”
JR, conhecido como o ‘Banksy francês’, cria instalação em forma de ‘caverna’ sobre a ponte mais antiga de Paris
Michel Euler/AP
Uma homenagem a uma lenda e um aceno à alegoria de Platão
A estrutura tem 120 metros de comprimento e 18 metros de altura — o equivalente a um prédio de seis andares.
No entanto, é construída quase inteiramente de ar — 80 arcos de tecido preenchidos com 20 mil metros cúbicos de ar — e pesa apenas cerca de cinco toneladas.
Os engenheiros de JR passaram semanas testando a estrutura em um hangar no aeroporto de Orly, simulando um corte no suprimento de ar para garantir que a rocha inflável mantivesse sua forma. O tecido foi costurado à mão por 25 artesãos em uma vila na Bretanha.
Os visitantes poderão caminhar gratuitamente por um longo e escuro túnel que bloqueia a luz do dia. “Você entra na escuridão”, disse JR, “e emerge na luz do outro lado.” Ele descreveu a experiência como uma jornada que cada pessoa é livre para fazer à sua maneira: “Muitas pessoas vão passar por esta caverna e deixar que a imaginação dite o que sentem.”
A obra de arte é uma homenagem a uma lenda artística de Paris. Em 1985, o artista Christo e sua esposa, Jeanne-Claude, embrulharam a mesma ponte em um tecido dourado pálido — utilizando 13 quilômetros de corda, após uma década de discussões com a prefeitura, atraindo três milhões de visitantes em duas semanas.
O ato ajudou a consolidar a ideia de arte monumental em cidades modernas. Uma praça ao lado da ponte agora leva o nome do casal — e é de lá que os visitantes darão o primeiro passo em direção à escuridão da caverna.
“É um desafio e tanto vir depois deles”, admitiu JR.
A caverna também traz um alerta. JR a construiu como uma referência à Alegoria da Caverna de Platão, na qual prisioneiros confundem sombras em uma parede com o mundo real.
“Quais são as nossas cavernas hoje? Nossos celulares”, provocou ele. “Porque acreditamos que o nosso algoritmo nas redes sociais é a realidade.”
Logo em seguida, ele entra na própria contradição: para entrar em sua caverna sobre telas, os visitantes levantam seus telefones. A empresa de tecnologia Snap desenvolveu uma camada de realidade aumentada que mostra o que o olho humano não consegue ver.
A trilha sonora é um zumbido grave e mineral composto por Thomas Bangalter, ex-integrante do Daft Punk — que tinha apenas 10 anos quando Christo embrulhou a ponte.
A caverna funcionará 24 horas por dia de 6 a 28 de junho, período em que a ponte ficará fechada para o tráfego de veículos. Ela poderá ser vista dos cais, de barcos que passam pelo rio e até do topo da Torre Eiffel. O evento coincidirá com a Semana de Moda de Paris, o Dia Mundial da Música e o festival de artes Nuit Blanche, que dura a noite toda.
Quando a estrutura for desmontada, o tecido será reaproveitado ou reciclado. Então, assim como o embrulho dourado de 40 anos atrás, a caverna desaparecerá — e a Pont Neuf, mais antiga que a república e mais antiga que a revolução, reaparecerá exatamente como era.
Fonte: G1 Entretenimento
